A copa do mundo acabou, e com ela uma chorosa constatação. A campeã não foi a Espanha. O campeão foi o melodrama. Explico: Para Eric Bentley, o melodrama é um gênero infantil. Por quê? Porque no melodrama os papéis estão claramente definidos, há o vilão forte sem nenhum escrúpo e há o herói - frágil porém valoroso. E, obviamente, nos identificamos com herói na certeza que venceremos o terrível vilão. Tudo isso regado com um molho onde sentimento de autopiedade é o maior ingrediente. Por isso para a Bentley o melodrama é um gênero infantil, porque só uma criança pode acreditar que as coisas são simples assim, que heróis e vilões estão claramente discriminados e que no fim, mesmo depois de apanhar muito, o herói irá fazer prevalecer o seu valor. De fato, só uma criança tem essa idéia da existência, não é verdade? Pois me parece que não é assim que pensam nossos locutores e jornalistas desportivos. Falando para uma nação inteira, muito mais do que narrar ou comentar uma partida, a intenção deles parecia clara: Determinar quem seria o herói e o vilão do jogo. Pouco importa se o futebol é um jogo disputado por 22 pessoas, mais as possíveis substituições, mais os técnicos, os juízes, os bandeirinhas, mais os interesses da FIFA, mais a famosa JABULANIIIIIII do Cid Moreira, mais as vuvuzelas, etc. Todo jogo, evidente que principalmente os do Brasil, pelas palavras dos narradores e comentaristas parecia apenas mais um pretexto para que o herói fosse glorificado e o vilão execredo sem dó nem piedade. Não tenho nada contra o melodrama, poderia aqui ficar horas citando maravilhosos exemplos de filmes melodramáticos fantásticos, aliás, pela necessidade orgânica de uma relação com o grande público, cinema e melodrama têm uma relação praticamente simbiótica. O problema é estender o seu modelo para todas as questões da vida, negando aos acontecimentos a determinação do acaso, do surpreendente, do imponderável, do inesperado e do inexplicável e, o pior, negando outro príncipio - o do trágico - que diz que vilão e herói podem estar, e o pior é que invariavelmente estão, na mesma pessoa. Cada vez mais precisamos de certezas e da certeza que nós produzimos apenas certezas. Isso é perigoso e leva a uma visão unilateral de muitos acontecimentos que são na sua grande maioria multifacetados. Somos heróis valorosos que apanhamos muito da vida, essa vilã, mas justamente por sermos heróis valorosos vamos aprender com os nossos erros, escolheremos e expurgaremos o nosso Felipe Melo e venceremos no final. Cada vez mais, como Peter Pan nos recusamos a crescer e levamos esse modelo para difentes situações e momentos de nossas vidas, legitimando-o e perpetuando-o. Que venha 2014! Até lá a gente brinca de gente séria e adulta. Poupem-me!
Escrito por Edu Frin às 22h37
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Liceu
Depois de um começo empolgado, dei-me tempo para escrever aqui. Começaram as aulas no INDAC, precisei me dedicar à escolha do texto que vou montar com os alunos, já andei fazendo algumas coisinhas do mestrado da UNESP onde acabei de entrar e trabalhei na remontagem do espetáculo "A Missa do Galo" que eu dirijo e com o qual vamos para Curitiba participar do festival de lá a partir de sexta-feira. Tudo isso sem falar que não quero ter uma obrigação de escrever aqui. Como eu já mencionei, sou de um outro tempo e acho que não preciso ficar gritando que eu existo pela rede afora. Mas é justamente sobre o que aconteceu em uma aula que eu quero falar. Quando decidi-me por me dedicar profissionalmente ao teatro, já no final do curso de administração de empresas, näo pensei que me tornaria professor. Mas assim que comecei a minha carreira os convites surgiram. O primeiro feito pela sempre presente amiga Bia Bologna para trabalhar na Faculdade Paulista de Artes, onde fiquei por dois anos e depois veio o convite do mestre Maucir Campanhole, que me levou para dar aulas no INDAC, onde estou até hoje - já são oito anos por lá - onde eu tenho imenso prazer e alegria de trabalhar. Há algumas semanas, em uma aula de estética estava falando sobre a Poética de Aristóteles. Estava um baita calor e a turma decidiu que a aula seria na varanda da escola (tem hora que o professor precisa aceitar que os alunos é que decidem certas coisas) e lá fui eu falar do grego e de sua obra de muitos séculos atrás - na varanda. E foi justamente o local onde estávamos que fez toda a diferença. De repente, ali, ao ar livre - talvez como os gregos faziam, falando de questões antigas, mas, mesmo que por negação muitas vezes, são pertinentes a quem se propõe a estudar seriamente a arte teatral, me bateu uma baita sensação de pertencimento. Uma sensação de não estar sozinho, de que de alguma maneira nós nos ligávamos a um passado remoto e nos lançáva-mos para o futuro, como um elo de uma grande corrente que nos envolve e nos une a todos. Tudo bem que no "Mal Estar da Civilização" Freud se refere a essa sensação de pertencimento, muito presente na base das religiões, como um resquício de uma primeira fase da infância, onde nós acreditamos que nós e o mundo somos a mesma coisa, que tudo existe em nossa função (mais ou menos isso - deem-me um desconto), mas quer saber... Já que é difícil escapar desse resquício egóico infantil, que alimenta tantos fanatismos, acho que é bem mais legal ter essa sensação falando de Aristóteles na varanda para os meus alunos.
Escrito por Edu Frin às 02h57
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O ano mal começou e já tô começando a ficar puto. Fico puto com muita coisa, mas algumas, as menores, me deixam muito mais puto ainda. Exemplo: Entrei na parte reservada para música clássica e jazz na super hyper mega store - hoje em dia já não basta ser loja, tem que ter um conceito... arg. Bom, já acho um saco ter parte separada para música clássica e jazz. Eu gosto dos dois estilos, mas também gosto de rock, mpb, pop e música sertaneja. Não acho que gostar de música clássica me transforme em um ser diferenciado, que tem um sala especial de uma loja para que eu possa me exibir e mostrar para os outros ao entrar: Estão vendo como o meu gosto é refinado? Como eles me diferenciam de vocês, pobres mortais que se contentam com o resto da produção fonográfica? Pois bem, mas o fato é que eu estava em um local destinado à venda de CDs de música clássica; definição abragente, inconclusiva e que sob paramêtros históricos pode ser considera até equivocada, mas que eu acho mais adequada e menos esnobe do que música erudita. Mas, enfim, dentre desta definição estão as óperas, com os seus arroubos de emoção materializados, que tomam forma através do canto. Pois bem, não sei por que cargas d´água o local estava sendo utilizado por uma senhora que gravava uma entrevista. Não estava tocando música nenhuma, os vendedores falavam baixo; tudo, presumo eu, para não atrapalhar a entrevista. Então, enquanto eu pesquisava nas estantes para ver se encontrava o que estava procurando, ouvi que o assunto da entrevista era orçamento familiar. A senhora falava das maravilhas do seu método de anotar todas as despesas em uma planilha, dizendo como a sua vida tinha melhorado depois de anotar tudo o que gastava, até as menores despesas, e que agora todo estava às mil maravilhas na sua vida. Fantástico! Falava em um tom de palestrante de auto ajuda, de modo que presumi ser a entrevista para a divulgação de algum trabalho dela, ou coisa parecida. O fato é que, talvez por algum descuido, um Cd começou a tocar e começou-se a ouvir na sala uma soprano interpretando uma ária de ópera. A nossa economista não se fez de rogada. Com ar de desaprovação e até de uma certa indignação, parou o que estava falando e bradou... "Tem uma mulher berrando aqui!" O vendedor pediu desculpas, saiu correndo e abaixou o volume, que nem estava tão alto, desculpando-se dizendo que deveria ser uma programação do aparelho que estava em modo "pause" e que voltou automaticamente, ou alguma coisa assim. Mulher berrando aqui? Como assim? A nossa entrevistada estava em um lugar onde se vende Cds de ópera; falando em tom de quem tinha descoberto a América de uma coisa ridícula que está em qualquer programa de variedades da televisão há anos quando o assunto é economia doméstica e se dá ao direito de se indignar quando é atrapalhada e de manifestar em alto e bom som a sua falta de conhecimento cultural (para ser educado) ao se referir ao agudo de uma soprano como "tem uma mulher berrando aqui!" Pois é, fiquei puto. Pensei na falta de humildade, de polidez, de educação, de gentileza, de conhecimento, de cultura. Pensei na avassaladora confusão de valores de nossa época e fui embora. Depois eu acho o que estava procurando. Se já não estiver perdido para sempre.
Escrito por Edu Frin às 23h52
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Nova velha peça.
Programei-me para sempre postar um novo texto nas noites de domingo. Não escrevi ontem para cumprir mais uma promessa de ano novo. Pois é, o bicho tá pegando em janeiro: Terminei de escrever mais uma peça de teatro. Pois é, para aqueles que não sabiam, ou que já tinham esquecido, me arrisco na dramaturgia às vezes. Tudo começou em 1997 quando após ter me formado ator no INDAC e ter feito o Viúva Porém Honesta com o Marco Antônio Braz, escrevi o "Um Deus de Plástico". Defini a peça como um Recital Dramático, pois fazia parte da ação uma cantora lírica e um pianista que interpretavam músicas de compositores brasileiros como Francisco Mignone, Osvaldo Lacerda, Villa-Lobos, entre outros. Na época convidei a Silvana Abreu, minha colega de turma, o pianista Xavier Bartaburu, a soprano Priscilla Borges, a musicista Tânia Greggio, o coreógrafo Uriel Ortiz, a iluminadora Silviane Ticher e lá fomos nós na aventura de por a peça em cartaz. Estreamos no auditório Cultura Inglesa de Higienópolis em agosto de 1988 e a peça ficou rodando por uns dois anos depois disso. Naquela época, contamos com a contribuição de muita gente, mas que eu destaco aqui a Bia Bologna, amiga e parceira querida que refinou o nosso trabalho de atuação e o Sérgio Milagres, companheiro do Indac que quebrou muitos galhos. Ah! Não posso esquecer da Maria Lourdes que deu a maior força, da própria Cultura Inglesa na figura do sempre presente Laerte Mello, da UNIFESP que emprestou uma sala com piano para a gente ensaiar, do Cris... Enfim, muita gente ajudou muito naquele tempo. Pois bem, depois disso eu escrevi o "Homem ao Mar", que se tornou um espetáculo para a comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil no ano 2000 com alunos e professores da Escola Municipal de Música (tinha mais de cem pessoas em cena). Escrevi também outras coisas, algumas ainda inéditas. Até que em meados 2001 comecei a escrever o texto que eu acabei de terminar. Pasmem, senhores! Demorei quase nove anos para escrever um texto de teatro... E pensar que tem muita gente boa que escreve um texto em uma noite... Na verdade, eu acredito que precisava passar por tudo o que passei nesses anos para concluir esse texto. Olhando para trás, sinto que fui amadurecendo com ele. Os meus primeiros textos me trouxeram a experiência da possibilidade de realização. Não sei se fui claro. Nos meus primeiros textos eu disse para mim que poderia escrever. Lembro-me muito bem do susto que tive em cena na estréia do "Um Deus de Plástico". No processo de ensaios eu me preocupei com tudo, com as atuações, com a luz, cenário, figurinos; mas foi só na estréia, foi só na estréia que pensei: "Nossa, essas pessoas estão assistindo a uma peça de teatro a partir de um texto que eu escrevi". E fiquei legal com essa constatação. Mas depois dos primeiros textos, o senso crítico atacou com tudo. Já sabia que poderia escrever, mas tinha que ir além, conseguir algo diferente para mim. Algo que também procurava em minha vida. Acabei de terminar o texto. Será que encontrei?
Escrito por Edu Frin às 23h24
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Nessa semana, por indicação do meu primeiro diretor de teatro e hoje grande amigo Albano Sargaço, assisti a um filme muito bonito. Trata-se de Hanami - Cerejeiras em Flor. Filmes como esse, que tratam da temática familiar com sensibilidade e inteligência, costumam mexer muito comigo. Só para vocês terem uma idéia quando assisti Rocco e Seus Irmãos do Visconti, saí do cinema em prantos e fui praticamente direto para o divã do psicanalista, de onde só saí oito anos depois. Uma coisa muito legal no filme é que, de uma maneira muito simples e sem afetação, inserindo-se na narrativa de uma forma muito natural, a dança butoh é parte do enredo. Aí foi demais. Quando comecei a estudar teatro no Indac no início dos anos 90, só se falava em Butoh e no seu principal representante Kazuo Ohno. De ambos, na época, nunca tinha ouvido falar. Muito por intermédio da Flávia Pucci e do Maucir Campanhole, meus professores à época, fui aos poucos conhecendo e me aproximando dessa forma de expressão (não vou ousar definir) surgida no Japão após a segunda guerra mundial por nomes como Tatsumi Hijikata e o próprio Kazuo Ohno. Na época cheguei até a frequentar um curso extracurricular que a Flávia ministrava inspirado em elementos do Butoh. Até que em 1997 o Kazuo Ohno voltou ao Brasil para uma série de apresentações. A coincidência foi que eu que estava em cartaz com a minha peça de formatura "Viúva Porém Honesta", dirigida pelo Marco Antônio Braz, no teatro do SESC da Consolação e as apresentações do Kazuo foram lá, no meio de nossa temporada. Além do que, ele deu uns workshops com uma seleção concorridíssima feita pelo SESC. O bom disso tudo foi que eu não apenas assisti ao espetáculo, mas também fui selecionado para fazer o workshop. Não dá para escrever o que foram aqueles dias. Eu já estava realizando um sonho de estar em cartaz com uma peça profissional em um dos melhores teatros da cidade, ver o Kazuo dançando é uma experiência que beira o território do místico, do indecifrável e conviver com ele, mesmo que por apenas um par de horas, foi daquelas experiências que nos deixam marcas por toda a vida. Nunca pensei em ser bailarino, ou "performer" de butoh. O meu primeiro impulso, o que eu busquei e acredito que ainda busco é a atuação; é a técnica e a mágica do trabalho do ator. Quando fui fazer o curso da Flávia, estava querendo ser um ator melhor do que eu era naquele momento. E agora, penso que assim foi com muita coisa. Querendo ser um ator melhor, tornei-me diretor e professor de teatro, cantor lírico com algumas incursões na direção de óperas e de espetáculos musicais, além de praticante e também professor de Tai Chi Chuan. Pensando em tudo isso, em tudo o que eu fiz: no Butoh, no canto, no Tai Chi, em Rocco e Seus Irmãos, em Hanabi, enfim, na constante tentativa de me tornar uma ator melhor, fico pensando se tudo isso não foi uma maneira que achei de tentar encontrar o meu caminho de volta para casa.
Escrito por Edu Frin às 00h28
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2010!!! Depois de muito adiar, resolvi publicar o meu primeiro texto em um blog. Pensando sobre esse adiamento dei-me conta que sou de um outro tempo. De um tempo que não era comum as pessoas acharem que tinham necessariamente alguma coisa importante para escrever, mas, se de repente um texto, uma crônica, ou mesmo um poema fugidio escapava, não era comum a idéia de que esse texto devesse, ou merecesse ser lido pelo maior número de pessoas possível. De um tempo onde a exibição pública da intimidade era, no mínimo, deselegante. Lembro-me que quando criança éramos orientados a nem falar o nosso nome ao atender o telefone. Se alguém cometesse a imprudência de ligar e perguntar "Quem está falando?" levava de volta o clássico "Com quem gostaria de falar?". Quanta diferença para os orkuts e facebooks todos... Durante muito tempo, no apogeu do orkut, eu também relutei em aderir à moda. Quando me falavam que era legal, que você poderia encontrar as pessoas do passado eu não entendia o porque do frenesi e respondia: "Mas quem te falou que eu quero encontrar alguém do meu passado?" Pois é... Agora estou aqui, com orkut, facebook, twitter e agora... blog. Trabalho com artes e sei que a exposição faz parte do jogo. Mas gosto de pensar que existe um meio termo, que o recolhimento é necessário para se dar densidade ao que deve ser exposto. Que deve haver um comedimento e uma reponsabilidade por parte de quem decida levar alguma coisa ao público. Mas, não achem que sou sempre louco de querer sempre nadar contra a correnteza (pelo uso dos "sempre" deu para perceber que eu gosto de nadar subindo o rio, muitas vezes). Por ter vivido A.I. (antes da internet) maravilho-me com as possibilidades do hoje, tanto é que estou aqui cumprindo a minha primeira promessa de ano novo e inaugurando o meu blog. Aliás, nessa passagem de ano percebi uma coisa interessante. Percebi que quando resolvi que iria fazer isso ou aquilo no ano novo, dentro de mim tinha uma voz que dizia: Isso dá. Isso... talvez. Isso... difícil. Isso... não vai rolar, sem chance! Mas eu determinava que ia fazer tudo, pensando sempre na importância do autoengano para o desenvolvimento da humanidade (assunto do bom livro "Auto-Engano" do Eduardo Giannetti) e também nos versos de Fernando Pessoa com os quais me despeço, desejando que em 2010 todos tenham o prazer de realizar pelo menos algumas das obrigações que se impuseram na noite do dia 31, mas que também experimentem o prazer sugerido por Pessoa. "Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não o fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. O sol doira Sem literatura..."
Escrito por Edu Frin às 23h07
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